Primeiras Notas

É quase imperceptível quando seus lábios começam a solfejar uma música inexistente. Ela sai naturalmente como já fosse uma velha conhecida. Aparecem algumas palavras, uma letra que já se desenha tímida - ainda faltando pedaços, tropeçando na métrica, ás vezes vem com um traço mais forte, encaixa-se como por milagre e derrepente... não sabemos como começou.

 

Primeiros registros

O melhor amigo do compositor é um gravador daqueles bem pequenininhos - de gravar conversa de político. Eu tenho um - presente da minha mulher, que levo na minha mala, porta luva do carro ou fica ao meu lado no escritório ou principalmente em caminhadas na praia ou no campo - onde as coisas acontecem.

Em um gravador, sem nos preocupar com absolutamente nenhum detalhe, damos a liberdade necessária ao processo criativo sem, de qualquer forma, fazer qualquer esforço de controle ou ensaiar a mínima autocrítica. Desta forma estaremos garantirndo uma duração maior de contato com as fontes da música permitindo um maior relaxamento de algumas regiões do nosso cérebro que não coperam muito nestes momentos.

Para os músicos, uma maior interatividade com seu instrumento preferido serve como um gravador.

 

Selecionando os Momentos

A partir do instante que se tem a matéria prima, já em formato reproduzível, é hora de usar aquelas regiões do cérebro, que antes queríamos emudecer, agora para fazer alguma seleção de "partes inspiradas" ou dos "momentos interessantes".

Estes primeiros fragmentos podem ser armazenados para uso futuro ou podem ser arrumados para compor uma música utilizando também momentos anteriores.

Neste momento, pode ser útil aquele amigo que gosta de escrever coisas interessantes, pode ser útil aquelas coisas que você mesmo escreveu e guardou na gaveta, ou pode ser que a letra "tenha vindo" com a música e tenhamos apenas que "tapar os buracos" e, por favor, respeito à métrica.

 

Letra e Música

As canções dotadas de letras são ligeiramente diferentes de canções puramente instrumentais, assim como suas letras são ligeiramente diferentes da poesia pura.

A melodia desenhada em música instrumental não segue o mesmo ciclo da palavra. Pode possuir notas mais curtas ou mais longas dos que as palavras existentes, assim como também possuir um padrão de repetição destas notas que difere da linguagem da poesia.

Ou seja, caso não queiramos forçar, existe música para um trabalho instrumental e música para se colocar letras. Por sua vez, existe poesia para ser recitada e poesia para compor uma canção.

É fácil ver quando não se teve sucesso.

 

O que é mais forte em você ?

Cada pessoa tem sua característica própria. Existem compositores que criam poesias cantadas, onde se percebe a música correndo atrás das palavras, onde se vê claramente as sequencias harmonicas sendo forçadas ao extremo. Outros criam músicas onde se tenta "encaixar" uma letra ou o mais complicado -uma poesia. Nesta última modalidade vê-se sequências harmônicas coerentes e inspiradas enquando as palavras são esticadas, comprimidas ou até eliminadas.

Existem compositores que usam a sonoridade das palavras e criam uma canção dançante onde não interessa o sentido da letra e que, na maioria das vezes, e não é mesmo para ter, fica tudo muito bonito ...se bem feito.

Existem compositores que pontencializam a mensagem e se perdem na métrica dando à música um tom épico típico das óperas - também ficando muito bonito...se bem feito.

Outros, com extrema sensibilidade e mostrando ser profundos conhecedores da riqueza da linguagem, munidos de mil e uma palavras de "tamanhos" diferentes e possuindo o mesmo significado, conseguem passear nas marcações da métrica e compor algo de extrema leveza conservando intacta a mensagem e a estética musical.

Quanto a "riqueza da linguagem", refiro-me de forma abrangente às diversas linguagens, não só a oficial - para iniciados. Refiro-me a linguagem das ruas, das estradas, das diversas culturas as quais se quer atingir.

Logo, para fazer música de rua é preciso ser "profundo conhecedor da linguagem das ruas". Por isto sai mais natural quando a música sai das próprias ruas.

Para se fazer um bom forró não basta apenas apertar o botão do seu teclado escrito - "forró" e, junto a isto, cantar uma balada chorosa de alto teor urbano. E assim vale para o samba, frevo, música sertaneja, religiosa e outras vítimas das ondas de massa.

É preciso entender que:

- A música tem seu próprio ritmo e que;

-a poesia tem seu próprio rítmo.

E, a maestria consiste em provar que tudo isto está errado e que a criação" soa bonito" e de forma natural.

 

Depois de todas estas considerações estaremos prontos para dar uma forma a nossa canção dando vez agora a expiração.